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AgirAzul 816 de maio de 1994página 20

Filosofia de vida

Teoria só se conhece na prática

Carlos Cardoso Aveline

Nota do editor

Texto digitalizado a partir do exemplar impresso e ainda não revisado. Em caso de dúvida, consulte a edição completa em PDF, no link acima.

Existe aquela velha história, bem conhecida, do filósofo que discutia com o teólogo. A discussão ia ficando cada vez mais acirrada. Até que o teólogo disse que um filósofo parace um homem cego, num quarto totalmente escuro, procurando por um gato preto — que não está lál "Pode ser", respondeu o filósofo. “Mas um teólogo teria encontrado o gato!"

Quando o ecologista (neste final de século) o caminho do equilíbrio saudável entre a economia atual e o meio ambiente, talvez tenha algo em comum com o filósofo e o teólogo da história acima. Mas, naquele tempo, ele precisa ter espírito prático. As palavras são extremamente úteis, quando emergem de uma vivência real.

Mas só servem para desorientar ainda mais, quando não estão vinculadas a uma visão estratégica, à percepção clara de uma meta, e à confirmação e experimentação constantes, na vida real. O pensamento ecológico é, ao meu ver, um aspecto do pensamento filosófico. Mas o pensamento filosófico é uma questão totalmente prática e-vivencial. A própria palavra filosofia significa amor à sabedoria; algo vivo, que descarta mera especulações.

O pensamento ecológico é muito mais antigo do que pensamos, e tem a mesma idade da sociedade humesna e da contradição entre economia organizada e meio ambiente. Surgiu, inicialmente, em um plano ético. E até hoje a base de toda a ação ecológica continua sendo a ética, A consciência ecológica hoje debate a ética para com as outras espécies vivas, a ética para com as próximas gerações, e algum teólogo incluirá a ética para com a Criação de Deus, mas os psicólogos poderão falar da ética — um sentimento de justiça — para conosco mesmos, considerando que trataremos o meio ambiente e as outras espécies aproximadamente do mesmo modo como tratamos a nós mesmos.

Os discursos ecológicos de empresários e de políticos serão verdadeiros, e terão efeitos positivos, na medida da ética interior de quem os disser. Infelizmente, a palavra parece uma moeda desvalorizada na sociedade atual, como já alertava o pioneiro Henrique Luiz Roessler, em 1962, em um artigo sugestivamente intitulado Sempre a mesma ladainha.

“Precisa-se ser muito ingênuo e ignorante para ainda acreditar nas mentiras 6 promessas demagógicas que sempre ressurgem nos. períodos pré-eloitorais", escreveu ele. E dois anos antes. Roessler já havia repetido estas palavras proféticas do Hermann Loens, ditas em 1911 na Alemanha: "Vivemos na era dos anúncios bombásticos, da superficialidade e das expressões inchadas, das palavras infladas de mentiras, do fraseado oco. Temos que pensar nisso, quando ouvimos as palavras proteção à natureza.

O ecologista, no entanto, não pode cair no cinismo; nom adotar, por desistôncia, a postura do derrotado que vô como inútil toco eeforço pela regeneração da humanidade. Els precisa renovar seu compromisso interior, diariamente se possível, porque a consciência ecológica também é uma planta que dove ser regada todo o dia.

Afinal, entre 05 ativistas sociais, o ecologista está entre aqueles que têm como dever repensar toda a sociedade atual, o não apenas um aspecto dela. Por outro lado, nenhum ativista social será eficaz se não acreditar de fato naquilo que diz. E nem todo o mundo acredita no que diz ultimamente. O ceticismo parece estar funcionando como uma patrulha ecológica contra a atuação regeneradora de outros segmentos do movimento popular e comunitário, que busca instalar no país umá democracia participativa.

Devemos analisar profundamente, sempre, a nossa visão de mundo; mas se decidimos dizer algo à socidade, devemos ter uma clara convicção — mesmo mantendo a mente aberta — em relação ao que dizemos. A necessidade de pessoas sinceras e que acreditam no que fazem é ilustrada pelo que aconteceu com o agnóstico David Hume, um famoso cético que foi acusado de incoerente porque ia assistir as prédicas de um eloquente pastor da igreja cristã, na Escócia. Hume explicou: "Eu não acredito em tudo que ele diz, mas ele acredita. E uma vez por semana eu gosto de escutar um homem que acredita no que fala".

Acreditar no que dizemos, certamente, não significa falar mais alto, criticar quem pensa diferente, repetir mil vezes a mesma argumentação, ou enfurecer-se quando o recado não é bem recebido. Acreditar no que dizemos implica, inclusive, não ter necessidade compulsiva de dizer algo. Quem respeita o que pensa e o que sabe, procura falar só quando estão dadas as condições para que seja ouvido. E mais.

Quem respeita o que conseguiu saber não fala apenas — nem principalmente — através de palavras; mas fala por seus atos. E este é um dos desafios do movimento ecologista: criar, inspirar, administrar quando possível novas práticas sociais, começando por si mesmo.

É aqui que a filosofia toca o chão palpável da vida diária. É preciso, entre tantas outras coisas, aprofundar e popularizar o arquétipo do cidadão ecologicamente correto. A busca — quase alquímica — do cidadão ecologicamente correto não é coisa apenas do plano físico. Começa com as emoções, os pensamentos, o equi- Jíbrio interior. A esta altura existem numerosos manuais do tipo 50 Coisas que você podo fazer para salvar o Planeta, e todos elos são importantes.

Assim como a devastação ambiental começa a partir da ambição pessoal o egoista, da gula, consumismo, vontade de enriquecer materialmente a qualquer curso e outros desequilíbrios interiores, também o equilíbrio ambiental extorno terá que emergir de uma nova atitude interior que gire em torno de valores mais inteligentes, como o altruísmo, a ética, o respeito de longo prazo pela vida em sua imensaa diversidade. E para alguns, há a suspeita, talvez de que os seres humanos sejam interiormente imortais, e estejam evoluindo em direção a níveis superiores do auto-conhecimento E ndo, 6 o conhocimento da vida. O que, no fundo, 9 mosgnis coisa.

“+, prática 6 o critério da vordado”", diziam Marx e Engels, parafraseando, talvez conscientemente, a famosa frase de Jesus Cristo, "A árvore so medo por seus frutos”. Nada oiro. Cada vez mais, 08 ecologistas ais verdad sua filosofia de dão sou recado pelos seus atos, vida. A seguir, mencionarei ao azar alguns dos inúmeros itens para a vide diária recomendados por ura manual de defesa ecológica. Menciono-s5 de propósito, sem quase defesa ou furdamentação, apenas como imagens due dão elementos para uma vida ecologicamente Sorreta, e que possa ensinar pelo exemplo prático: Dô folga ao estômago. Não coma demais. Seu estômago é um dos seus amigos mais preciosos, e merece ser poupado.

Encha os pulmões. Respire profundamente. Afinal, o sangue precisa de oxigênio. Coma menos carne. As distas naturais e vegetarianas são as mais indicadas para qusm pretende viver mais tempo e com mais saúde. Uso bicicleta como voículo. A bicicleta não polui, mas ao contrário, é uma forma útil de exercício físico, descongestiona o trânsito e humaniza as ruas.

Deixe o carro em casa. Use carro só quando indispensável. Adote o chá natural. Corte ou diminua o café e chá preto. Não fume. O fumante que virou ecologista já deu o primeiro passo. Agora é só deixar de fumar. Evite alimentos refinados, especialmente açúcar, sal e farinha.

Adote o arroz integral. Pergunto de onde vêm suas verduras. Compre verduras sabendo de onde vêm e garanta que são plantadas sem veneno. Assim você faz o mercado evoluir mais rápido em direção aos produtos naturais.: Use mel e frutas, não use açúcar.

Evite o consumismo. Compre só o necessário. Uso roupas e calçados até o fim. Mais importante que a reciclagem, é a “ciclagem". As coisas todas, e não só as roupas, devem ser usadas até o fim. Nisto, o ecologista é mesmo subversivo. Porque comprar coisas desnecessárias é um dogma, na sociedade atual.

Continue esta lista, interrompida aqui somente por falta de espaço. Faça uma lista completa que reflita a vida ideal do ecologista na sua opinião. Depois faça um exame da sua vida. E diga a você mesmo quantos itens você já atende; quantos poderia atender sem muito esforço; quantos está disposto a atender como um ato de auto-disciplina. Verá então como sua eficácia na luta ecologista aumentará, E como se as palavras ditas por você Passassem gradualmente a carregar Consigo mais si o do, e um significado mais Profundo. guisa *O autor trabalha na UP. Protetora do Ambionto Natural Mens oldo, R$. Tel, 592-7933. Fax nº 5932-6617 Asslnaturas: Informe-se na pág, 27

Como citar AVELINE, Carlos Cardoso. Teoria só se conhece na prática. AgirAzul, Porto Alegre, n. 8, 16 de maio de 1994, p. 20. Disponível em: https://agirazul.com.br/Eds/ed8/teoria-so-se-conhece-na-pratica.htm. Acesso em: .