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AgirAzul 816 de maio de 1994página 19

Herman Daly

os perigos do Livre Comércio

Carlos Gustavo Tornquist

Nota do editor

Texto digitalizado a partir do exemplar impresso e ainda não revisado. Em caso de dúvida, consulte a edição completa em PDF, no link acima.

Daly é fulminante quando trata de seus colegas: “(.) nossa preferência por resultados logicamente belos em detrimento de políticas baseadas em fatos alcançou tais proporções fanáticas que nós, economistas, nos tornamos perigosos para o planeta e seus habitantes". As propostas atuais que norteiam o GATT e todos os acordos de livre comércio como NAFTA. União Européia e MERCOSUL, baseiam-se no pensamento de David Ricardo, economista inglês do início do século XIX, que formulou a idéia da vantagem comparativa. Para alguns países, por motivos tecnológicos, culturais ou mesmo naturais, é mais barato produzir certos produtos em comparação a outros; se ocorrer uma especialização, e for feito comércio internacional sem barreiras, segundo esta lógica, todos se beneficiarão. Um dos problemas é que naquela época não havia um fluxo internacional de capitais como hoje, quando por um simples telefonema ou fax, grandes somas são transferidas para qualquer canto do globo.

Só este fato já invalidaria as idéias “liberais”, pois quem realmente se beneficia são os grandes investidores, as grandes corporações transnacionais que movem-se rapidamente para onde for mais favorável negociar. E como por este mesmo esquema, há necessidade de se especializar, muitos países já não têm mais a liberdade de não entrar no jogo - suas economias ficaram direcionadas pera o exterior.

O comércio internacional nos moldes em que é praticado hoje traz outras contradições: mais da metade do volume transacionado hoje envolve a exportação e importação simultânea dos mesmos bens. Por exemplo, ao mesmo tempo que america nos importam biscoitos dinamarqueses, dinamarqueses importam biscoitos americanos. John M. Keynes, contrariamente, já aconselhava que o conhecimento fosse internacional e os bens produzidos nacionalmente. Ou seja, seria mais lógico americanos e dinamarqueses trocarem apenas as receitas dos biscoitos.

Outro aspecto mencionado por Daly é o de que o aumento da competição provocado pelo comércio internacional leva a uma constante e premente busca por menores custos de produção - “obtidos por aumento de eficiência ou pela redução dos padrões de controle de poluição, estrutura salarial, segurança no trabalho, política de saúde coletiva, etc. Todas estas últimas alternativas “externalizam” seus custos. Por esta razão os governos mantém estruturas de fiscalização que evitam (pelo menos teoricamente) reduções deste tipo. Por outro lado, não existem estruturas análogas num âmbito internacional”. Temos apenas as leis nacionais que variam de país para país e geralmente são muito primitivas ou até inexistentes nos países do Terceiro Mundo.

Daly vai mais além mostrando que todos os “liberalizadores” [free-traders] estão plenamente de acordo em que se man-

Como citar TORNQUIST, Carlos Gustavo. os perigos do Livre Comércio. AgirAzul, Porto Alegre, n. 8, 16 de maio de 1994, p. 19. Disponível em: https://agirazul.com.br/Eds/ed8/os-perigos-do-livre-comercio.htm. Acesso em: .