AgirAzul 816 de maio de 1994página 9, 10
O Sambódromo da Administração Popular: Projeto Municipal pode destruir áreas únicas de Porto Alegre
Ney Gastal
Texto digitalizado a partir do exemplar impresso e ainda não revisado. Em caso de dúvida, consulte a edição completa em PDF, no link acima.
pesa ietthos ÉS === Uma antiga Lei da Física tornouse dramaticamente demonstrável em Porto Alegre, graças à soma de uma promessa eleitoral do Prefeito com a insensibilidade tecnocrática de setores da própria Prefeitura é da UFRGS, O enunciado da referida lei diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo, A promessa do Prefeito foi a de terminar definitivamente com a improvisação que todos os anos caracteriza a montagem do espaço para o carnaval de rua da cidade, E a insensibilidade tecnocrática é a mesma de sempre: considerar qualquer área sem concreto como “vazio urbano”. Resultado da equação: uma enorme área hoje verde, utilizada por milhares de pessoas como lazer e desafogo das pressões urbanas, pode virar um monstrengo de concreto, chamado “sambódromo” por uns, “centro de eventos” por outros, “parque cultural” por terceiros, mas que, na realidade, não passa de mais uma concretagem do verde, em nome de um progresso equivocado.
. Colocar conjuntos de prédios sobre áreas verdes do. centro da cidade é o sonho permanente de todo tecnocrata que se preze, seja cle arquiteto, engenheiro, político, empreiteiro, ou até relações-públicas, jornalista, publicitário, advogado e quejandos menores, na escala do lucro direto com tais mega-projetos. O aterro do Guaíba, dentro desta perspectiva, sempre foi visto com olhos cobiçosos por esta gente toda. Justiça seja feita, quem o idealizou não tinha apenas a idéia de proteger a cidade contra as cheias, mas também a de abrir uma área para a expansão urbana.
Problema é que a realidade muda. Quando foram construídos os primeiros prédios sobre o aterro, como a Escola Técnica Parobé, IBGE. Centro Administrativo do Estado, IPE, DAER c outros, ninguém reclamou porque o que existia ali era apenas aterro Mesmo agora, há pouco, quando foram iniciadas as obras da Justiça Federal, ninguém reclamou pelo motivo simples, óbvio e transparente de que ela foi estabelecida sobre uma área completamente vazia, um campo tão plano e rasteiro que era utilizado como espaço para “peladas” futebolísticas. Caberia ao pessoal de esportes, interessado em guardar lugares como aquele para manter vivo o interesse espontâneo pelo futebol reclamar. Não o fizeram, a obra está crescendo em paz.
HISTÓRICO DA ILHA O tal “sambódromo” (e adoto daqui para frente este designativo por ser o menor e - sejamos francos - o mais apropriado), ao contrário, vai agredir uma área não apenas arborizada, como também urbanizada. Em uma reunião realizada na SMOY, no início do ano, por convocação da assessoria ambiental do Prefeito, os arquitetos responsáveis pelo anteprojeto declararam, com orgulho, que ele não significaria a derrubada de uma única árvore.
Em outra reunião, na Câmara dos Vereadores, em março, foi feita a denúncia de que mais de 600 árvores seriam derrubadas, o que motivou a SMAM a responder que seriam apenas 111. De zero para 111, o aumento é significativo, Só que a Centrô de nas Porto Alegre, BAD Ponta do Gasômetro churrascaria Local da Reserva biológica Rio Guaiba SMAM parece ter se limitado a contar as arvores derrubadas em linha reta. Desconsiderou um bosque existente junto a Augusto de Carvalho e, muito pior, ignorou completamente o único exemplo de reconstituição espontânea de mata. nativa existente no centro da cidade, que será completamente destruído, caso o projeto seja implantado, É um lugar único. Quando foi realizada a primeira fase do aterro, que não vinha até a Usina do Gasômetro, mas terminava mais ou menos onde hoje passa a Augusto de Carvalho, havia um ponto de cruzamento dos canos das dragas. Naquele ponto surgiu uma pequena'ilha. Quando foi feita uma praça junto aos muros do Cadeião, que existia ao lado da Usina do Gasômetro, não foram poucos os namorados que assistiram ao pôr-do-sol tendo aquela pequena ilhota em primeiro plano.
E ali foi se reconstituindo uma vegetação espontânea muito bonita. Nos domingos de sol, vez que outra, todos nós, guris criados em apartamentos do centro, conseguíamos um barco emprestado e íamos até a ilhota. Maiores, em plena adolescência, vez que outra conseguíamos levar uma namorada ao local, de onde se podia ter uma vista diferente (e romântica), da cidade. Veio a segunda fase do aterro e a ilha foi abraçada por ele. Mas a mata sobreviveu e cresceu. Por isso é que tanta gente se espanta com a variedade e densidade da flora ali existente, e com a idades de alguns espécimens que ali estão. O lugar é muito mais antigo que o aterro que o cerca. E, repito, a única área do centro da cidade onde a vegetação nativa se recompôs de forma espontânea.
Em torno deste recanto único (re- - conhecido na própria placa do parque como “área ecológica”) estabeleceu-se a Estância da Harmonia, outro lugar de características únicas no centro da cidade. Ali, também de maneira quase espontãnea, criou-se um núcleo de preservação da cultura gaúcha. Sem os exageros de alguns CTGs (alguns, não todos), de forma mui” to próxima a idealizada há quatro décadas por Paixão Cortes. Barbosa Lessa. Glaucus Saraiva, e tocada até hoje'por personagens como Nico Fagundes, a Estância tornou-se um centro de preservação da cultura nativista. O sucesso que o lugar faz entre as crianças, a cada domingo, é um atestado eloquente do interesse que despertam as lides do campo entre os jovens que, nascidos e criados na cidade, muitas vezes não tinham sequer a oportunidade de ver uma O que é atualmente área verde em Porto Alegre pode virar arquibancadas e pista de desfiles. Mesmo com o projeto original (ver representação acima) modificado, desviando a pista de forma que não passe por cima da reserva ovelha ao vivo, ou acompanhar o garbo - biológica (a Ilha, antigamente), os danos serão irreparáveis (ver também o matéria de capo). O projeto que já. - adentrou na Câmara de Vereadores, prevê arquibancadas de Gm (o original previa 16m) de altura. Esta modificação, além do trajeto, foi a únida admitida sela Administração Populer, que diz ler recursos para a implementação, 9 da obra ainda em 1994. À qualquer custo, querem o carnaval em pista nova no ano que vem (O editor).
