AgirAzul 816 de maio de 1994página 18
Parque Nacional do Iguaçu
"Estrada do colono" volta à cena
Teresa Urban
Texto digitalizado a partir do exemplar impresso e ainda não revisado. Em caso de dúvida, consulte a edição completa em PDF, no link acima.
O Parque Nacional de Iguaçu é um dos mais antigos parques brasileiros. Foi criado em 1939, com o objetivo de proteger a densa floresta que envolve as Cataratas do Iguaçu. Os 185 mil hectares do parque, somados aos $$ mil do vizinho Parque Nacional de Iguaçu, na Argentina, constituem a mais significativa área de mata pluvial subtropical existente na América do Sul.
É um dos poucos parques brasileiros a dispor de um efetivo Plano de Manejo e foi exatamente sua implantação que gerou a polêmica em torno da Estrada do Colono, aberta em 1954 (bem depois da criação do parque, mas antes da elaboração do plano de manejo), que corta, num trecho de 18 quilômetros a área depois definida como Zona Intangível, isto é, que deve ser totalmente preservada, diminuindo a distância entre duas localidades da região.
Para a população que vive nas pequenas cidades vizinhas ao parque, a estrada representava um trajeto alternativo, bem mais curto, para os centros de comércio da região. Daí a reivindicação de asfaltamento, para facilitar o transporte de produtos agropecuários.
Em 1986 - já na vigência do Plano de Manejo - o governo estadual iniciou as obras de pavimentação da rodovia, sem qualquer consulta às autoridades responsáveis pela manutenção do parque. Diante disso, algumas associações ambientalistas da região recorreram à Procuradoria da República pedindo a suspensão das obras através de uma Ação Civil Pública. Na ação, pediam também o fechamento definitivo da estrada, fazendo cumprir, dessa forma, os critérios estabelecidas no Plano de Manejo.
A ação estava dirigida contra o IBAMA, responsável pela administração do parque, porque não estava cumprindo as determinações do Plano de Manejo. Os inconvenientes imediatos de uma estrada cortando a Zona Intangível do parque podem ser assim resumidos: 1) aumen- - to das atividades ilegais como caça e extração florestal clandestina, roubo de palmito, etc. 2) risco de fogo provocado por pontas de cigarros e fósforos - lixo, óleos e similares, jogados ou desprendidos de veículos em trânsito, alem de ruídos que se irradiam por centenas de metros; gases e outras substâncias tóxicas expelidas pelos escapamentos 3) erosão em locais com o subsolo exposto, nos cortes e aterros, afugentando a fauna - iluminação intermitente dos faróis confundiriam a fauna crepuscular e noturna.
Além desses fatores circunstanciais, O tráfego constante provoca alterações na flora e fauna numa área de preservação obrigatória por seu significado dentro dos ecossistemas que estão sendo protegidos. O juiz Milton Luís Pereira, da la.
Vara da Justiça Federal, acatou os argumentos da associações ambientalistas e determinou o fechamento definitivo da estrada. Q IBAMA acatou a determinação e a estrada foi fechada com apoio da Polícia Federal em agosto de 1987.
Com a situação legalmente resolvida, a questão passou a ser contestada pelo governo do Estado em nome das comunidades locais prejudicadas pelo fechamento da estrada. À ação ainda tramita no Tribunal Regional Federal, dependendo de uma nova perícia técnica solicitada pela Justiça ao governo do Paraná em 1990 e nunca atendida.
Nos quase sete anos em que a estrada está fechada, houve recuperação visível da flora e alguns estudos demonstram modificações importantes nos hábitos dos grandes felinos que ainda vivem no Parque. No momento, alguns especialistas desenvolvem pesquisas no sentido de ampliar a área protegida nos países vizinhos, para garantir um maior espaço de circulação para a fauna.
Essa área poderá constituir, num futuro próximo, o primeiro parque trinacional (Brasil. Argentina e Paraguai) da América do Sul, uma das principais bandeiras dos ambientalistas ao Mercosul. Estamos noticiando os fatos para que os leitores possam ajudar a evitar que o processo de abertura da estrada seja retomado.(via Alternex) Posição das Entidades sobre a Estrada do Colono “Quase sete anos depois do fechamento da chamada Estrada do Colono (PR-163), o assunto volta a ocupar espaço na imprensa e tempo da saturada justiça brasileira. Não por acaso, o assunto volta em período pré-eleitoral. Em sete anos, assim como uma criança se transforma num jovem, uma floresta cresce significativamente. Do alto, já há muito é impossível distinguir o traçado da estrada e, no chão, somente bons conhecedores distinguem as marcas do trecho que corta a zona intangível do Parque Nacional de Iguaçu. A rapidez com que a floresta sc recompôs, com milhares de espécies retomando seus espaços € suas interrelações no ecossistema, do mesmo modo com que'a fauna ocupou seu lugar, comprova o acerto da medida tomada pela Justiça. E mostra que não se trata de “reabrir” uma estrada e sim de fazer uma nova estrada, fato inaceitável dentro de um dos mais importantes parques nacionais do pals.
Os sete anos que separam os fechamento da estrada dos dias de hoje foram marcados por um enorme esforço da humanidade para encontrar um novo modo de olhar os recursos naturais. A idéia de que a natureza é fonte inesgotável de matéria-prima foi derrubada na Conferência das Nações Unidas sobre Meio A mbiente e Desemvolvimento, realizada em junho de 1992, no Rio de Janeiro, diante das ameaças crescentes de alterações climáticas globais provocadus pelos excessos do desenvolvimento. Entre os excessos, a destruição sistemática das flores. tas ocupa lugar de destaque.
Os parques nacionais são à memória das florestas em extinção e O Parque Nacional do Iguaçu prossge uma tipo de floresta que praticamente não mais existe no país. Sua importância foi reconhecida pela UNESCO, que deches rou os vizinhos parques nacionais brasileiro e argentino Patrimônio da Humanidade.
Num país de parques de papel, sem recursos, sem proteção nem regularização fundiária, o Parque Nacional do Iguaçu é um grande exemplo, internacionalmente respeitado, que deveria ser motivo de orgulho de todos os brasileiros e, em particular, dos paranaenses.
O Fórum das Entidades Ambientalistas da Região Metropolitana de Curitiba encaminhará denúncia sobre o assunto aos grandes fóruns ambientais nacionais e internacionais, governamentais e não-governamentais e às agências financiadoras internacionais.
