AgirAzul.com.br impresso entre 1992 e 1998 Conteúdo formatado para celular / Mantidos todos os links conforme edição original Edição 7 completa em PDF

AgirAzul 728 de dezembro de 1993

Sementes de Mudanças

Humberto Mafra via Conferência no Alternex

Biodiversidade

Sementes da Mudança

São Francisco da Califórnia - Realizou-se em São Francisco, entre os dias 15 e 17 de Outubro, a Conferência“Sementes da Mudança - Bioneiros e Bioremediação”, sobre experiências de regeneração ecológica e o uso de técnicas vivas (biológicas) como forma de restauração do meio ambiente degradado. O nome Seeds os Change vem da empresa que se dedica a recolher, preservar e distribuir sementes autenticamente orgânicas de plantas comestíveis em processo de rápido desaparecimento. Mas reflete também a visão de um grupo de ativistas e organizações que se reúnem anualmente para discutir temas e problemas ecológicos e as respectivas soluções, usando tecnologias apropriadas.

Foram discutidos o tratamento de águas, esgotos e substâncias tóxicas lançadas em rios e cursos d'água, o uso de várias técnicas relativamente baratas para o tratamento e regeneração de recursos hídricos, o uso de brejos e pântanos artificiais como estações ecológicas de tratamento, proteção da biodiversidade, áreas de lazer, restauração urbana e proteção da saúde pública.

Foi retomada a questão da utilização de dejetos humanos como fertilizantes e formas alternativas de tratamento do mesmo, inclusive em casa, isto é, na fonte - ao invés de redes extensas (e caras) canalizando todo aquele material para os rios, destruindo-os, e causando a perda de sua riqueza orgânica. É necessário considerar estes e outros dejetos orgânicos como recursos e não como problemas.

Soluções baratas ou tecnologicamente simples são inadmissíveis, porque não beneficiam uma horda de advogados burocratas do governo e executivos de grandes corporações que passaram a viver do problema, não contribuindo com sua resolução. O meio ambiente para esses setores é uma nova fronteira econômica, depois do fim da guerra fria. Então, soluções simples e imediatas precisam ser abafadas ou desacreditadas como estão sendo em Washington, sem falar na completa inexistência de apoio a esse tipo de pesquisa.

Essas não são denúncias vazias ou panfletárias contra o sistema capitalista.

Também discutiu-se plantas e experiências práticas de preservação da biodiversidade. Não pude acompanhar as discussões devido a compromissos, mas segundo participantes, foram tão interessantes quanto os temas anteriores.

Por último, discutiu-se plantas mensageiras: será possível o uso de plantas alucinógenas, ou psicodélicas, como o cogumelo, a ayahuasca e outras, para comunicação do mundo vegetal com os seres humanos? Afinal, o que temos em comum com essas plantas que permitem a elas desencadearem processos em nossa consciência? Seria talvez uma forma de comunicação de Gaia com os seres humanos, ressurgindo agora nesse período atribulado de sua história? Isso é muito especulativo para mim nesse ponto, mas tem gente acreditando que sim.

Uma das mais brilhantes palestras foi ministrada por Terence MacKenna e ele acredita que a restauração dos nossos laços com o mundo natural só vai ocorrer quando reaprendermos a utilizar estas plantas mensageiras para os objetivos superiores de evolução da consciência e do nosso lugar apropriado na sintonia do mundo natural. A ecologia está flertando com o xamanismo, em busca de mapas e ecossistemas interiores.

Em 1994, a conferência Sementes da Mudança se realizará mais uma vez e com certeza trazendo algumas das discussões mais interessantes deste grupo de ecologistas verdadeiramente ponta de lança. Como sonhar não é crime, talvez um dia poderemos trazer alguns desses conferencistas para animar uma sessão do ENEA - Encontro nacional das Entidades Ambientalistas Autônomas. O problema é saber se o ENEA teria condições de abrir um espaço para eles em sua agenda.

Como citar ALTERNEX, Humberto Mafra via Conferência no. Sementes de Mudanças. AgirAzul, Porto Alegre, n. 7, 28 de dezembro de 1993. Disponível em: https://agirazul.com.br/Eds/ed7/maf.htm. Acesso em: .