AgirAzul 123 de dezembro de 1996
Entrevista com José Lutzenberger com o Parque da Guarita
Unidade de Conservação no RS
Municipalização do Parque da Guarita
Porto Alegre, outubro a novembro de 1996 -O governo do Estado cedeu o Parque Estadual da Guarita, em Torres, para a Prefeitura Municipal. Sobre o assunto,AgirAzulapresenta a entrevista que segue com José Antônio Lutzenberger, presidente daFundação Gaia, e o texto abaixo, de Augusto César Cunha Carneiro, presidente daPANGEA. AgirAzulsolicitou cópia do ato de cessão à Secretaria de Turismo, que não o forneceu.
AgirAzul— Qual a importância, inclusive ecológica, que o Parque da Guarita tem?
Lutzenberger —O Parque da Guarita é para ser um cartão de visita do Estado em sua entrada norte junto a costa. Ele está em cima dos promontórios de Torres e junto a eles, que é o único lugar da costa gaúcha onde montanha e mar se chocam. Ele é portanto um lugar privilegiado da nossa costa. O único lugar realmente belo das nossas praias porque a maioria de nossas praias são simples faixas brancas infinitas para ambos os lados e ali nós temos uma formação rochosa belíssima com uma flora também única, endêmica. Muitas das espécies que ali existem, existem ali e em nenhum outro lugar do mundo.
Por isso se concebeu ali um parque estético-ecológico, um parque concebido em cima da natureza existente com o sentido de refazê-la onde já estava devastada e acrescentar, sempre dentro de um diálogo direto com a natureza, sem plano inicial, concebendo o parque a medida que ele ia crescendo. Neste sentido, também, ele é único. É o primeiro parque no Brasil que foi feito dentro desta filosofia, sem plano inicial, sem mapa inclusive. O mapa foi a última coisa que aconteceu. Toda aquela natureza existente foi preservada, os caminhos foram feitos, e os implementos foram complementares à natureza existente e nunca impostos em cima dela.
AgirAzul— Foste o administrador e implantador do Parque entre 1973 e 1978. Tu tens estado lá, como é que tens visto a situação dele?
Lutzenberger —Ele ainda está bastante bonito, bastante belo e muita coisa desenvolveu-se relativamente bem. Muitas vezes até eu ficava com medo que dessem atenção, porque aí, sim, iam mudar toda a filosofia e destruir o pouco que sobra. Mas este parque precisa de uma administração adequada. Ali é preciso a administração de uma pessoa que entenda do Parque, que conheça a filosofia dele, que tenha sensibilidade naturalista, ecológica e estética e que tenha força e meios para mantê-lo e desenvolvê-lo.
AgirAzul— O que achas da cessão do Parque ao Município?
Lutzenberger -A verdade é que o parque, dentro da filosofia em que foi construído, só precisa de dois ou três homens bem motivados para ser cuidado e de preferência os mesmos que o mantiveram até hoje. Esperamos que a Prefeitura tenha a sensibilidade para conservar o Parque. Estamos dispostos à retomar o trabalho lá.
Entrevista a João Batista Santafé Aguiar
