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AgirAzul 1111 de dezembro de 1995página 17, 18, 19

Ensaio

Ciência e Tecnologia - onde está a mentira ?

José Lutzenberger

Nota do editor

Texto digitalizado a partir do exemplar impresso e ainda não revisado. Em caso de dúvida, consulte a edição completa em PDF, no link acima.

Ciência e tecnologia: onde está a mentira? == EEE JOSÉ ANTÔNIO LUTZENBERGER? vivemos hoje uma civilização universal, O Industrialismo Global, que se tornou uma religião fanática. Ela se sobrepõe a todas as religiões e ideologias tradicionais. Não se diz religião. sua doutrina atual não foi anunciada por nenhum profeta. Ela não tem livro santo nem catecismo explícito, mas a doutrina é tão forte que é confundida com senso comum e é aceita e seguida quase sem exceções pelos poderosos em todo mundo, sejam quais forem os regimes políticos. Ela é o alicerce do poder dos governos.

Mesmo antes do falecimento do chamado Comunismo, já era assim. Aliás, as diferenças entre Capitalismo e Comunismo são da mesma natureza que as diferenças entre Protestantismo e Catolicismo. Assim como estes têm a mesma doutrina básica, ambos são cristãos, Capitalismo e Comunismo querem a mesma coisa - desenvolvimento industrial sem limite. A diferença está na forma de administração. Catolicismo e Comunismo têm Papa infallvel, doutrina rígida e explícita e facilmente classificam os que discordam, de “hereje” ou “inimigo de classe” e os perseguem. O Capitalismo é mais sutil, procura absorver, envolver, doutrinar subliminarmente. Onde não consegue integrar e dominar, aliena, desmoraliza e marginaliza.

O que está acontecendo não é a previsão de George Orwell em seu livro “1984”, que previa um estado todo poderoso, totalmente" repressivo, que, com tecnologia sempre mais sofisticada e envolvente, controlaria até a vida privada do cidadão. Está se concretizando a previsão de Aldous Huxley em seu livro "Brave New World”, ou Admirável Mundo Novo", versão em português, Este previa uma situação contrária, igualmente perniciosa, ou Pior, porque mais inescapável - um poder difuso, quase invisível, supostamente democrático, que se impõe pela desinformação, pelo apelo a atitudes boa hedonistas e mesmo orgiásti- Uma vez, em uma palestra Para estudantes universitários, procuteimostrar os estragos sociais e ecoló- Sicos do consumismo. Um jovem me interpelou; “mas onde fica a felicidade das pessoas, se não houver consumo?” Lindo exemplo de assimilação inconsciente da doutrina Imperante, O dogma básico desta religião diz que o “crescimento econômico” é a medida de todo sucesso, é a medida de progresso, de prosperidade. Este crescimento não pode parar nunca.

Mas, nesta: fé, crescimento econômico se mede em PNB, Produto Nacional Bruto, também chamado de Produto Social Bruto, PSB, ou Interno Bruto, PIB. Este Índice econômico é a soma de todos os faturamentos numa economia nacional. Inicialmente, como PNB per capita, servia apenas para avaliar a média das rendas, o que, naturalmente, nada nos diz sobre a justiça social num país. Que significa a média entre a renda do usineiro nordestino, que anualmente chupa milhões em subsídios, e a miserável renda de seu bóia fria? O PNB, no entanto, passou a ser Índice para medir e comparar progresso. Mas ele só mede atividade, não distingue entre atividade desejável e indesejável.

A simples curiosidade diante dos mistérios do Universo, não vale Digamos que a poluição e a degradação ambiental'cheguem a ponto de causar violenta deterioração na saúde pública. -Construíremos mais hospitais e ambulatórios, haverá mais gastos com médicos, enfermeiras, medicamentos, ambulâncias, funerárias, O Índice crescerá da mesma maneira que ele cresce com atividade realmente produtiva. Os economistas, ao invés de medir mais sofrimento, estarão medindo mais prosperidade. O mesmo acontece com desastres, guerras, terremotos, devastação florestal. Até a corrupção, o crime e a droga fazem crescer o PNB.

O crescimento assim medido, não pode parar. Seus custos geram, inclusive, mais crescimento. Em Washington, em reunião preparatória para a cúpula do meio ambiente no Rio de Janeiro, a ECO-92, ouvi o Presidente George Bush, depois, na própria cúpula, a Primeira Ministra da Noruega, Gro Bruntiand, mentora da Conferência, em palavras diferentes, dizerem a mesma coisa: “precisamos de mais crescimento para termos os recursos para arrumar os estragos que já temos.” Instrumento supremo para atingimos este alvo é a Tecnologia, que precisa desenvolver-se sem freios, pois ela é vista como uma espécie de cornucópia, que nos dará sempre novos milagres, para resolver todos nossos problemas, sem fim. Sua fonte e justificativa é a Ciência.

Na prática política e administrativa já temos um conceito unificado - Ciência e Tecnologia. Quase todos os governos do mundo têm Ministérios ou Secretarias de Ciência e Tecnologia. Não conheço nenhum que os separe. A real e sagrada função da ciência, nesta visão, é a produção de novas tecnologias, de tecnologias vendáveis, de preferência patenteáveis, que levem a faturamento, sempre mais faturamento. Neste enfoque, a Ciência é apenas servo fiel da economia. Assim, consideram-se cientistas hoje, quase todos aqueles “pesquisadores” que desenvolvem novas tecnologias, mesmo que se trate apenas de encontrar uma nova fórmula para sabão ou perfume.

Por outro lado, aqueles poucos que ainda fazem ciência básica, por exemplo, nos grandes aceleradores de partículas para descobrir as leis mais básicas do comportamento da matéria, quando precisam pedir verbas aos governos, justificam seu trabalho com o possível aparecimento de novas tecnologias ainda não discerníveis, mas que, certamente, serão de grande valor, A simples curiosidade diante dos mistérios do Universo, não vale. A biologia molecular já está quase toda em mãos de grandes empresas transnacionais, que, com ela, procuram desenvolver produtos ou mesmo seres vivos patenteados. Aliás, as aves em nossos atuais campos de concentração de galinhas, já não são mais raças, são marcas registradas.

Mas o que é a Ciência, o que é Tecnologia? É claro que, pelo conceito corrente, é isto que aí está. O “establisment é técnico-científico-industrial, é a igreja da nova religião. Mas, em termos filosóficos, O que é Ciência, o que é Tecnologia?

A Ciência - com C malúsculo é um diálogo limpo com o Universo, ou seja, com a Natureza. Ela se apoia no postulado de que o Universo não é caótico. Não existem milagres, mistérios insondáveis sim. As leis do comportamento da Natureza são universais, imutáveis e intransgredíveis.

Quer dizer que as leis da física são as mesmas na galáxia longínqua que está a bilhões de anos luz de distância, eram as mesmas quando partiu de lá a luz que hoje observamos e que levou bilhões de anos para aqui chegar, e serão as mesmas enquanto durar o Universo. E, se alguém nos contar que conhece um lugar onde os rios correm montanha acima e a chuva sobe do solo ao céu, não precisamos perder tempo para ir lá verificar.

Muito leigos, especialmente economistas e políticos, analfabetos em ciências naturais, parecem pensar que a Ciência acabará encontrando maneiras de superar as leis da Natureza. Que passaria por cima da lei da gravidade, por exemplo. Argumentam, assim, que sempre haverá tecnologia para reparar o que estragamos, que encontraremos sempre novos recursos, quando.seacabarem os atuais.

Mas, se hoje um Boeing 747 atravessa oceanos com 500 pessoas a bordo, a novecentos quilômetros por-hora e a dez mil metros de altura, é porque os engenheiros que projetam e desenvolvem estas naves se atêm estritamente às leis da física, eles não têm como não submeter-se à lei da gravidade, às leis da aerodinâmica e outras. Qualquer desrespeito a estas leis e o avião não voa ou cai.

“A Ciência quer descobrir as leis universais, imutáveis e intransgredíveis do comportamento da Natureza. Como faz para descobri-las? Ela se empenha num diálogo absolutamente honesto com tudo o que podemos ob- Ouvindo o Silêncio com a ASCAPAN - última página

Como citar LUTZENBERGER, José. Ciência e Tecnologia - onde está a mentira ? AgirAzul, Porto Alegre, n. 11, 11 de dezembro de 1995, p. 17, 18, 19. Disponível em: https://agirazul.com.br/Eds/ed11/ciencia-e-tecnologia-onde-esta-a-mentira.htm. Acesso em: .