AgirAzul 1111 de dezembro de 1995página 4
A vistoria arqueológica do trecho Tainhas-Terra de Areia da Rota do Sol
Francisco Silva Noelli e Fabíola Andréa Silva.
Texto digitalizado a partir do exemplar impresso e ainda não revisado. Em caso de dúvida, consulte a edição completa em PDF, no link acima.
Realizada entre novembro e dezembro de 1994, a vistoria consistiu em verificar se havia sítios arqueológicos nos últimos 54 quilômetros da Rota do Sol. A atividade foi realizada com endosso institucional do Museu Arqueológico do Rio Grande do Sul, mediante projeto aprovado pela 12º Coordenadoria Regio-.
-nal do IPHAN. A equipe foi constituída por nove arqueólogos (seis alunos de pós-graduação em arqueologia da PUCRS). Utilizando metodologias próprias da arqueologia, percorremos a pé os trechos do leito atual que ficarão sob a Rota, bem como os trechos a serem abertos no leito projetado (30 metros a partir do centro da estrada). Sucintamente, apresentaremos os resultados da vistoria.
Localizamos no leito projetado em cima da serra, na vila de Aratinga, três sítios arqueológicos distintos, uma pedreira arqueológica; um trecho de um antigo caminho de tropas; sobre o leito, ao longo de 1.500 metros, encontramos pedras lascadas, típicas da tradição Umbu. À pedreira, uma ocorrência rara de ser detectada, é um importante patrimônio a ser preservado e pesquisado, pois fornecerá informações sobre a aquisição de matéria-prima para confecção dos instrumentos líticos das populações que ali viveram. No sopé da serra, há uma casa enxaimel do início do século XX, que ficará perto de um dos pilares de sustentação da ponte que será cons-"
truída sobre o Arroio Carvalho. Seguindo a estrada, 1.500 metros após, ao lado do trecho projetado, há restos de uma habitação que pertenceu, segundo muitas pessoas da região, a uma possível figura da Revolução Federalista de 1893. A 14km de Terra de Areia, encontramos um banhado junto da estrada que foi aterrada com sedimentos de um sítio arqueológico desconhecido.
*Protegidos" por lei, os sítios deverão ser preservados. A estrada será desviada para não atingir os sítios e, caso o desvio não seja possível, deverá haver pesquisa arqueológica. Esta atividade proporcionou uma experiência muito além dos fins práticos e científicos a que nos propuse- ROTA DO SOL mos. Tivemos a oportunidade de contactar muitos moradores das margens da estrada e constatar que a maioria é favorável a sua instalação, principalmente devido à facilitação do deslocamento. Os poucos descontentes, especialmente os pequenos proprietários, reclamaram de tentativas de desapropriação com indenizações irrisórias. Somente dois tinham realmente preocupação com a questão ambiental, sendo que um teria parciálmente destruída a mata que preservava e outro" teria seu reflorestamento de 10.000 araucárias muito alingido.
Também constatamos o descaso das autoridades em relação à ecologia, quando da primeira tentativa de abrir a Rota do Sol no final do Governo Pedro Simon, Verificamos, entre Tainhas e Aratinga, quase 10 km abertos sem RIMA e Vistoria Arqueológica.
Quantas estradas e outras grandes construções foram realizadas, sem qualquer estudo de impacto ambiental ou patrimonial? Da mesma forma que é necessário um RIMA, é fundamental uma vistoria arqueológica, pois o Rio Grande do Sul.e o Brasil são fiquíssimos em sítios arqueológicos.
A partir de agora, aproveitando o crescimento da consciência ambientalista, devemos disseminar a consciência patrimonial antes que parte significativa da História do Estado seja eliminada. No Rio Grande do Sul, por exemplo, há pelo menos 12.000 anos de história indígena contra pouco mais de 350 anos de história dos europeus e seus descendentes. Tão frágeis quanto quaisquer ecossistemas, os sítios arqueológicos são destruídos só uma vez, É como se queimássemos as páginas de um livro sem lê-las.
“ A instalação da Rota do Sol, assim como muitas obras em andamento ou projetadas, a despeito de todas as complexas questões e contradições envolvidas, parece ser inexorável, O dever dos que têm consciência dos danos ao ambiente e ao patrimônio nacional é.
continuar lutando, num primeiro momento para repetir os embargos que forçaram o RIMA e esta vistoria da Rota. E, num segundo momento, prevenir e planejar que se evite a monotonia ambiental e cultural, bem como eliminar as desigualdades no usufruto de obras desse porte.
* ARQUEÓLOGO/ETNO-HISTORIADOR 4a ARQUEÓLOGA/DOUTORANDA EM ANTROPOLOGIA PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO ENDEREÇO: Av. JOÃO PESSOA, 981/41 PoRrTO ALEGRE/RS 90040-
